Quebra da Evergrande ? possíveis impactos no Brasil

A gigante Evergrande é um conglomerado importante, mas sua quebra é um sintoma de um problema ainda maior na economia chinesa

Antes, uma introdução

A Evergrande não é apenas a segunda maior construtora chinesa. Trata-se de um gigantesco conglomerado que inclui banco próprio, oferecendo produtos de investimento, montadora de automóveis elétricos, dentre outras empresas que fazem parte do conglomerado. Até mesmo um dos maiores clubes de futebol do país, o Guangzhou Evergrande FC, até recentemente treinado por Fabio Cannavaro, campeão do mundo pela Itália, em 2006, faz parte do grupo e está em processo de dispensa de jogadores. No entanto, claro, a construção de imóveis é seu maior mercado.

Um verdadeiro império com números equivalentes ao de países com certa importância. Prova disso é sua dívida, de mais de US$ 300 bilhões, maior que a dívida pública da Nova Zelândia, por exemplo.

Apesar de seu tamanho, contudo, a quebra de uma construtora, isoladamente, não seria algo que causasse impactos duradouros na economia do mundo inteiro. A questão, porém, é o motivo pelo qual a gigante veio à lona.

Estamos já avançando para 18 meses de pandemia, com substancial disrupção das cadeias de produção. Os Estados Unidos, embora rivais da China, são seu maior importador e estão com a economia em frangalhos, fato demonstrado pelo acúmulo de containeres no Porto de Los Angeles, por exemplo (as importações chegam da China, mas não há exportações de volta dos Estados Unidos para que os containeres saiam de lá. Em consequência, o preço do transporte de containeres subiu acentuadamente no mundo todo, mas disparou mais de cinco vezes nas rotas que vêm da China para os Estados Unidos).

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Alia-se a isso o fato de que o governo chinês resolveu intervir fortemente nos mercados, proibindo lucros em empresas de educação, fatiando e regulando pesadamente suas gigantes de tecnologia e já causando grandes quedas nos mercados.

Todos esses problemas econômicos acabariam impactando o mercado imobiliário. E a Evergrande, com alguns títulos de dívida chegando a pagar mais de 10% ao ano em dólar, se viu em situação de insolvência.

A solução do governo chinês

O governo chinês resolveu intervir e, praticamente, nacionalizar a empresa. A princípio, focou o caixa da companhia na finalização das unidades habitacionais já em construção, em detrimento do pagamento de juros aos credores, medida que, normalmente, só ocorre com empresas em recuperação judicial.

Embora louvável, o fato é que tal medida praticamente deixa a empresa fora do mercado de crédito privado, afinal, que investidor emprestaria para uma empresa que já não honra seus compromissos, mesmo que pague um juro muito maior? Deste modo, a empresa só conseguirá continuar em operação com aportes do próprio governo chinês, muito provavelmente.

E aí que, um aporte do governo chinês significa que todo mundo com algum capital no país acabará pagando um pedaço da conta, via impostos ou inflação. Ou seja, mais um fator que torna o investimento na China menos atraente. Não se deve contar, portanto, com aquele crescimento de dois dígitos que normalmente ocorriam nos anos anteriores.

As consequências para o Brasil

E qual é o impacto no Brasil? A Evergrande, por si só, não teria, mas a questão conjuntural chinesa, sim. Ora, a China é, hoje, a maior parceira comercial do Brasil. Aliás, não só do Brasil, como de praticamente o mundo todo (este link mostra como a China tomou o lugar dos Estados Unidos como maior parceiro comercial no mundo todo).

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Isso significa, provavelmente, uma menor demanda por produtos de exportação brasileiros, como minério de ferro e outros itens. A retomada econômica brasileira fica mais difícil, impactando todos os mercados, da bolsa ao mercado de imóveis. Aliás, empresas brasileiras do setor imobiliário já estão sendo revisadas para baixo.

Em teoria, outros países poderiam, também, passar a demandar mais produtos brasileiros, mas não há, hoje, grandes economias crescendo fortemente no mundo, exceto algumas menores na Ásia e na África. Europa e Estados Unidos estão, nitidamente, crescendo muito menos. Tais economias serão capazes de cobrir a menor oferta chinesa? É uma incógnita.

No entanto, se há alguma coisa comum a mercados livres é que espaços deixados por uma empresa ou país são sempre ocupados por um terceiro, provavelmente mais eficiente e que trará crescimento econômico. A questão é se os mercados permanecerão livres.

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